Muriçocas do Miramar 40 anos: o bloco que "acordou" o carnaval de João Pessoa

O bloco Muriçocas do Miramar, um dos símbolos mais tradicionais do pré-carnaval de João Pessoa, completa 40 anos de história em 2026, consolidado como um dos principais movimentos culturais da capital paraibana.

Criado no bairro do Miramar, em João Pessoa, o bloco ultrapassou o formato tradicional de desfile carnavalesco e tornou-se referência pela valorização da cultura popular, pela ocupação democrática do espaço urbano e pelo compromisso social ao longo de quatro décadas.

O desfile acontece, tradicionalmente, na quarta-feira que antecede o Carnaval, conhecida entre os foliões como "quarta-feira de fogo", uma referência bem-humorada à "quarta-feira de cinzas". A escolha da data foi estratégica e decisiva para a história do carnaval pessoense: era o último dia em que a cidade ainda reunia moradores antes do esvaziamento provocado pelas viagens para outros polos carnavalescos do Nordeste.

Origem simples, impacto duradouro

As Muriçocas do Miramar surgiram em 1986, a partir de uma iniciativa de moradores do bairro durante a comemoração do aniversário de Thiago Gualberto, filho do professor universitário Antônio Gualberto e da professora, poeta e jornalista Vitória Lima. Naquele ano, o bloco ainda não saiu oficialmente.

Segundo os fundadores, a cidade estava vazia e Vitória escreveu um poema dizendo que “só tinham ficado as muriçocas”, inseto típico do bairro. A ideia ganhou força e, no ano seguinte, o bloco foi oficialmente criado.

O primeiro desfile reuniu cerca de 30 pessoas, puxadas por uma carroça com tração animal e um pequeno equipamento de som tocando frevo. Quatro décadas depois, o que começou de forma improvisada transformou-se em um dos maiores cortejos do Folia de Rua de João Pessoa.

Percurso e características

A concentração acontece na Praça das Muriçocas, nome que o espaço passou a receber em referência direta ao bloco. O percurso segue pela Avenida Tito Silva, atravessa a Avenida Epitácio Pessoa, chega à orla e segue até o cruzamento da Avenida Nego com a orla, totalizando cerca de 5 quilômetros.

O bloco não possui cordão de isolamento, mantendo o caráter aberto e popular. As camisetas, vendidas antecipadamente, têm concepção de artistas locais. Ao longo do trajeto, moradores que não desfilam acompanham a passagem dos trios, estandartes e bonecos diretamente de varandas, jardins, muros e calçadas, reforçando o vínculo comunitário.

Movimento cultural e identidade

Um dos fundadores e compositor do hino do bloco, o mestre Fuba, destaca que as Muriçocas extrapolam a definição de bloco carnavalesco.

“São 40 carnavais que ressignificaram a festa de Momo em nossa cidade. Eu não considero as Muriçocas apenas um bloco, mas um movimento cultural que acordou o folião para carnavalizar o extremo oriental do país”, afirma.

Segundo ele, o bloco mantém um compromisso permanente com a cultura da terra, adotando critérios que priorizam artistas locais e manifestações populares. “Um grupo de cultura popular tem o mesmo valor que um artista nacional em cima de um trio elétrico”, reforça.

Cerca de 70% das atrações musicais são formadas por artistas paraibanos. Além disso, o bloco não permite músicas com apelo sexual ou incentivo à violência.

O início do pré-carnaval de João Pessoa

Na década de 1980, João Pessoa não tinha tradição carnavalesca consolidada e muitos moradores viajavam para Recife ou Salvador. “As Muriçocas deram o pontapé inicial para que a prévia de carnaval de João Pessoa existisse”, afirma Thaïs.

A escolha da quarta-feira de fogo foi fundamental para garantir público antes do êxodo carnavalesco, consolidando um modelo que depois seria seguido por outros blocos.

Entre as tradições preservadas estão o desfile na quarta-feira, Fuba puxando o bloco, o estandarte anual e o Acorda Miramar, que acontece desde os anos 1990, sempre às 23h59 da terça-feira, marcando simbolicamente a chegada da quarta-feira de fogo. Ao mesmo tempo, o bloco testa novas experiências, como o esquenta no Centro Histórico, realizado recentemente, que pode se tornar tradição a partir de 2027.

Fonte: G1

Compartilhe: