Opinião: As sandices de Bolsonaro

Opinião: As sandices de Bolsonaro

(No UOL, por REINALDO AZEVEDO) Como é? Jair Bolsonaro e os seus estão em meio a uma operação estratégica que ainda não foi percebida por ninguém? É mesmo?


Terei de fazer algumas considerações antes que avance.

Respeito as crenças alheias, mas tenho as minhas. Não acredito em fantasmas. Não acho que mortos voltem para assombrar os vivos. Ou ainda para lhes dar recados por intermédias pessoas. Penso que, em havendo outro mundo, a lógica não lhe há de ser estranha. Por que escolheriam a mim para se manifestar? Melhor ir diretamente ao ponto: que falem, no momento, com Donald Trump. Pode mais do que eu. Por que mortos iriam interromper minha vidinha sem importância para dar recados do além? Ganharão comigo o quê? No máximo me dariam um susto. Se eu contasse para outros, estes diriam: "Ih, tá vendo? Sempre achei que ele não era bom da cabeça…"

O mesmo vale para ETs, né? Se existem e têm algo a dizer, vão dar pinta lá na Times Square, em Nova York. Será um bafafá dos diabos. Por que iriam buscar contatos com terráqueos lá em Dois Córregos, no interior de São Paulo, onde nasci e onde moram muitos dos que amo? A gente gosta de jogar truco, de tomar umas pingas, de contar uns causos, de cuidar da nossa vidinha. ET é grandeza demais para nós… Pô! Que vão procurar o Putin. Ou aquele canalha do Recep Erdogan, presidente da Turquia. Deem um pito no cara: "Pare de matar crianças, vagabundo!". Sim, os meus ETs são seres evoluídos! Para chegar à Terra, dada a distância de muitos nadas que nos separam de qualquer possibilidade de haver vida inteligente no além, os estranhos teriam de ter uma tecnologia superior à nossa, né? Sigo otimista: com tanta sabedoria para chegar a nós, também teriam uma moralidade superior e não tolerariam determinados tipos.

"Então você não acredita nos corpos de ETs que estão escondidos na Área 51, Reinaldo, a base secreta norte-americana?… " Ah, queridos, não acredito. Se seres ignotos tivessem conseguido chegar à Terra, seriam dotados de uma tecnologia tão superior à nossa que não se deixariam assustar por comedores de lanche de pasta de amendoim com leite na hora do almoço…

Sou, em suma, um descrente em coisas de outro mundo. E sempre me pergunto: "Mas isso serve para quê? O que se ganha?" E, sim, também tenho a resposta pronta para a hipótese de um fantasma ou ET se materializar à minha frente. Com a humildade necessária diante do incontestável, direi: "Opa, eu estava errado!" Mas só no caso de o troço se manifestar para mais gente e conceder uma entrevista coletiva. Se aparecer só para mim, mudo de remédio ou de bebida.

Vou voltar agora a Bolsonaro.

Então nada do que estarrece os meus olhos, que ainda não estão cansados de se encantar e de se espantar, é maluquice? Vocês juram mesmo que o presidente da República e seus filhos — de saber parco, improvisado e tirado da algibeira — estão agindo com cálculo e método, já antevendo a reação deste ou daquele? Maldito Shakespeare! Depois que a personagem Polônio, na peça Hamlet, disse que as besteiras proferidas pelo príncipe doidivanas eram loucura, mas tinham método, passou a haver uma injusta e generalizada descrença na pura e simples maluquice.

Entendo! Reconhecer que temos um presidente com muitos parafusos a menos traz ao primeiro plano a nossa própria sandice, certo? "Nossa", digo, a dos brasileiros: gente, leitor, como eu e você. Fazer o quê? Como povo — ainda que, pessoalmente, cada um de nós possa ter feito outras escolhas —, elegemos o cara que está aí. Convenham: ninguém tem o direito de alegar surpresa, qualquer que tenha sido o voto individual. E também não vale dizer: "Ah, a alternativa era um petista…" Pensem bem! Essa é uma desculpa mais falsa do que nota de três reais.

Quando vemos o doido atirar contra o próprio patrimônio; quando constatamos que ele pode explodir sua base de apoio, já insuficiente para garantir a estabilidade política; quando nos deparamos com ações que seriam típicas de sabotadores, bem, a nossa primeira reação é agir, então, como aquele que acredita em almas penadas ou na visita de seres de planetas distantes. Pensamos: "Ah, certamente, há alguma coisa encoberta aí que ainda não sabemos. Há, em tudo isso, uma verdade secreta que não alcançamos".

Pois é, queridos! Acho que nada há além de indigência intelectual, política e moral. Um conjunto de circunstâncias levou os brasileiros a fazer essa escolha trágica. Como povo, acreditamos que um bando de celerados poderia fazer a coisa certa. Pensamos algo mais ou menos assim: "Já que os especialistas falharam, por que não um ogro, que profere ignorâncias com o desassombro dos irresponsáveis?" E cá estamos.

Jair Bolsonaro nem é uma alma penada nem é um ET. É presidente do Brasil. Não se impôs a nós. Foi eleito. E por que isso aconteceu? Temos de buscar essa explicação.

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